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Cora Coralina - Raízes de Aninha


Primeiras poesias, textos inéditos, depoimentos de familiares e um acervo fotográfico compõem a obra Cora Coralina – Raízes de Aninha, de Clóvis Britto e Rita Elisa Seda. Fruto de 20 anos de pesquisa e entrevistas, o livro vai além dos limites biográficos. É um retrato fiel da vida humana e artística de Anna Lins dos Guimarães, que entrou para o rol das principais poetisas brasileiras de projeção internacional com o nome de Cora Coralina.


O resultado é uma obra fundamental para o estudo da língua portuguesa, para a história do Brasil e para a beleza artística de poemas. ouquissimas mulheres foram privilegiadas de receberem o diploma de Honoris Causa. O máximo que um país presta em homenagem a um filho seu é o título de Doutor Honoris Causa, e ela, apesar de mulher o recebeu.


No diploma está escrito o nome dela correto: Anna Lins dos Guimarães Peixoto Brêtas, e ele assinou Ana Coralina, porque se ela fosse Anna nínguem ia saber quem era. Cora Coralina, desde o dia em que criou esse pseudônimo, é ela e mais ninguém. Incorporou a Cora Coralina em sua alma.


BRITO, Clóvis C.; SEDA, Rita E. Cora Coralina – Raízes de Aninha. 2 ed. São Paulo, SP: Ideias & Letras, 2009, 472 p.





Sobre o autor:


Rita Elisa Seda é santarritense de nascença, joseense de coração e vilaboense de alma. Filha, esposa, mãe e avó, já fiz um pouco das coisas que mais gosto na vida: filosofia, jornalismo, arqueologia, fotografia, artesanato e escrita. Há quem diz que para ser feliz é precisa plantar uma árvore, escrever um livro e dançar um tango. Eu já plantei várias árvores, escrevi alguns livros e dancei muitos tangos com meu pai. Dentre tudo isso a magia de escrever é a que mais me fascina.


Clóvis Carvalho Britto é sociólogo. Doutorando em Sociologia pela Universidade de Brasília (UnB), Linha de Pesquisa "Arte, Cultura e Patrimônio". Mestre em Sociologia pela Universidade Federal de Goiás (UFG) com a dissertação "Sou Paranaíba pra cá: literatura e sociedade em Cora Coralina". Membro dos Grupos de Pesquisa "Cultura, Memória e Desenvolvimento" (UnB) e "Literatura e outras linguagens" (UEG). Possui diversos livros, capítulos de livros e artigos publicados, e atualmente pesquisa as interconexões entre literatura e sociedade na poesia brasileira de autoria feminina.



Inhotim


Em 27 de junho de 2009 o extinto Diretório Acadêmico Adélia Prado promoveu um passeio cultural ao Centro de Arte Contemporânea Inhotim. Tratou-se de uma visita livre, sem a orientação de guias, o que em nada empobreceu a visita dos alunos do Curso de Letras, uma vez que estavam à disposição monitores e placas explicativas.


Os alunos do curso, por volta das 17h30, abandonaram o local com a comum sensação de que Inhotim respira poesia, seja pela paz que se sente ali, seja pelas suas belas paisagens ou pelas impressionantes obras de arte de autoria brasileira e estrangeira. Leia sobre Inhotim no site www.inhotim.org.br, agende uma visita e confira algumas fotos da visita feita pelos alunos do Curso de Letras da PUC Minas.


Inhotim, sem dúvida, alimenta a poesia que existe no cerne de cada um de nós.



Viagem a Inhotim




Inhotim


O Instituto Inhotim é um complexo museológico original, constituído por uma seqüência não linear de pavilhões em meio a um parque ambiental. Suas ações incluem, além da arte contemporânea e do meio ambiente, iniciativas nas áreas de pesquisa e de educação. É um lugar de produção de conhecimento, gerado a partir do acervo artístico e botânico.


Criado em 2005, Inhotim é uma entidade privada, sem fins lucrativos e qualificada pelo Governo do Estado de Minas Gerais como Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip).


Localizado em Brumadinho, a 60 quilômetros da capital mineira, possui um importante acervo de arte contemporânea e uma extensa coleção botânica. Em Inhotim, o meio ambiente convive em interação com a arte, e são o ponto de partida para o desenvolvimento de ações de caráter socioeducativo nas mais diversas áreas.


O representativo acervo de arte contemporânea de Inhotim vem sendo formado desde meados da década de 1980, e tem como foco obras criadas a partir dos anos 1960. Possui pinturas, esculturas, desenhos, fotografias, vídeos e instalações de artistas brasileiros e internacionais.


O Parque Tropical possui áreas que seguiram conceitos sugeridos pelo paisagista Roberto Burle Marx. A enorme variedade de plantas faz de Inhotim um local onde se encontra uma das maiores coleções botânicas do mundo, com espécies tropicais raras e uma reserva florestal que faz parte do bioma da Mata Atlântica.


Tudo isso fornece de base para o desenvolvimento de pesquisa, inovação científica e educação.




Disponível em: http://www.inhotim.org.br/p/v/199 .



Reforma Ortográfica


Queridos leitores, o texto que se segue está circulando no meio virtual desde o início do ano. É pena que o nome do autor não seja do nosso conhecimento. A despeito disso, porém, somos gratos a ele por haver nos brindado com esta belíssima maneira de abordar a Reforma Ortográfica. Espero que gostem. Um beijo.






Em casos como AUTOESTIMA, o hífen cai.

A sua é que não pode cair de jeito nenhum.

Em algumas palavras,

o acento desaparece,

como em FEIURA.

Aliás, poderia desaparecer a palavra toda.

O acento também cai em IDEIA,

só que dela a gente precisa.

E muito.

O trema sumiu em todas as palavras,

como em INCONSEQUÊNCIA,

que também poderia sumir do mapa.

Assim, a gente ia viver com mais TRANQUILIDADE.

Mas nem tudo vai mudar.

ABRAÇO continua igual.

E quanto mais apertado, melhor.

AMIZADE ainda é com “z”,

como vizinho, futebolzinho, barzinho.

Expressões como “EU TE AMO” continuam precisando de ponto.

Se for de exclamação, é PAIXÃO, que continua com “x”,

como ABACAXI, que, gostando ou não,

a gente sempre vai ter alguns para descascar.

SOLITÁRIO ainda tem acento,

como SOLIDÁRIO,

que só muda uma letra, mas faz uma enorme diferença.

CONSCIÊNCIA ainda é com SC,

como SANTA CATARINA,

que precisa tocar a vida pra frente.

E por falar em VIDA,

bom, essa muda o tempo todo,

e é por isso que emociona tanto!



Vale mais que um trocado


Ambulantes, pedintes e moradores de rua não esperam só por dinheiro dos motoristas parados no sinal vermelho. Sem pagar pra ver, eu vi


Rodrigo Ratier (rodrigo.ratier@abril.com.br)




CAMINHO LIVRE A cada livro oferecido em vez de esmola, um leitor descoberto.
Foto: Rogério Albuquerque. Clique para ampliar


"Dinheiro eu não tenho, mas estou aqui com uma caixa cheia de livros. Quer um?" Repeti essa oferta a pedintes, artistas circenses e vendedores ambulantes, pessoas de todas as idades que fazem dos congestionamentos da cidade de São Paulo o cenário de seu ganha-pão. A ideia surgiu de uma combinação com os colegas de NOVA ESCOLA: em vez de dinheiro, eu ofereceria um livro a quem me abordasse - e conferiria as reações.

Para começar, acomodei 45 obras variadas - do clássico Auto da Barca do Inferno, escrito por Gil Vicente, ao infantil divertidíssimo Divina Albertina, da contemporânea Christine Davenier - em uma caixa de papelão no banco do carona de meu Palio preto. Tudo pronto, hora de rodar. Em 13 oferecimentos, nenhuma recusa. E houve gente que pediu mais.

Nas ruas, tem de tudo. Diferentemente do que se pode pensar, a maioria dessas pessoas tem, sim, alguma formação escolar. Uma pesquisa do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, realizada só com moradores de rua e divulgada em 2008, revelou que apenas 15% nunca estudaram. Como 74% afirmam ter sido alfabetizados, não é exagero dizer que as vias públicas são um terreno fértil para a leitura. Notei até certa familiaridade com o tema. No primeiro dia, num cruzamento do Itaim, um bairro nobre, encontrei Vitor*, 20 anos, vendedor de balas. Assim que comecei a falar, ele projetou a cabeça para dentro do veículo e examinou o acervo:

- Tem aí algum do Sidney Sheldon? Era o que eu mais curtia quando estava na cadeia. Foi lá que aprendi a ler.

Na ausência do célebre novelista americano, o critério de seleção se tornou mais simples. Vitor pegou o exemplar mais grosso da caixa e aproveitou para escolher outro - "Esse do castelo, que deve ser de mistério" - para presentear a mulher que o esperava na calçada.

Aos poucos, fui percebendo que o público mais crítico era formado por jovens, como Micaela*, 15 anos. Ela é parte do contingente de 2 mil ambulantes que batem ponto nos semáforos da cidade, de acordo com números da prefeitura de São Paulo. Num domingo, enfrentava com paçocas a 1 real uma concorrência que apinhava todos os cruzamentos da avenida Tiradentes, no centro. Fiz a pergunta de sempre. E ela respondeu:

- Hum, depende do livro. Tem algum de literatura?, provocou, antes de se decidir por Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis.

As crianças faziam festa (um dado vergonhoso: segundo a Prefeitura, ainda existem 1,8 mil delas nas ruas de São Paulo). Por estarem sempre acompanhadas, minha coleção diminuía a cada um desses encontros do acaso. Érico*, 9 anos, chegou com ar desconfiado pelo lado do passageiro:

- Sabe ler?, perguntei.

- Não..., disse ele, enquanto olhava a caixa. Mas, já prevendo o que poderia ganhar, reformulou a resposta:

- Sim. Sei, sim.

- Em que ano você está?

- Na 4ª B. Tio, você pode dar um para mim e outros para meus amigos?, indagou, apontando para um menino e uma menina, que já se aproximavam.

Mas o problema, como canta Paulinho da Viola, é que o sinal ia abrir. O motorista do carro da frente, indiferente à corrida desenfreada do trio, arrancou pela avenida Brasil, levando embora a mercadoria pendurada no retrovisor.

Se no momento das entregas que eu realizava se misturavam humor, drama, aventura e certo suspense, observar a reação das pessoas depois de presenteadas era como reler um livro que fica mais saboroso a cada leitura. Esquina após esquina, o enredo se repetia: enquanto eu esperava o sinal abrir, adultos e crianças, sentados no meio-fio, folheavam páginas. Pareciam se esquecer dos produtos, dos malabares, do dinheiro...

- Ganhar um livro é sempre bem-vindo. A literatura é maravilhosa, explicou, com sensibilidade, um vendedor de raquetes que dão choques em insetos.

Quase chegando ao fim da jornada literária, conheci Maria*. Carregava a pequena Vitória*, 1 ano recém-completado, e cobiçava alguns trocados num canteiro da Zona Norte da cidade. Ganhou um livro infantil e agradeceu. Avancei dois quarteirões e fiz o retorno. Então, a vi novamente. Ela lia para a menininha no colo. Espremi os olhos para tentar ver seu semblante pelo retrovisor. Acho que sorria.

* os nomes foram trocados para preservar os personagens.



Disponível em: http://revistaescola.abril.uol.com.br/gestao-escolar/diretor/vale-mais-trocado-432764.shtml .



POESIA: a transitividade do ser



“O poema é, de modo mais ou menos consensual, caracterizado como um texto escrito (primordialmente, mas não exclusivamente) em verso. A poesia, por sua vez, é situada de modo problemático em dois grandes grupos conceituais: ora como uma pura e complexa substância imaterial, anterior ao poeta e independente do poema e da linguagem, e que apenas se concretiza em palavras como conteúdo do poema, mediante a atividade humana; ora como a condição dessa indefinida e absorvente atividade humana, o estado em que o indivíduo se coloca na tentativa de captação, apreensão e resgate dessa substância no espaço abstrato das palavras.


Se o poema é um objeto empírico e se a poesia é uma substância imaterial, é que o primeiro tem uma existência concreta e a segunda não. Ou seja: o poema, depois de criado, existe per se, em si mesmo, ao alcance de qualquer leitor, mas a poesia só existe em outro ser: primariamente, naqueles onde ela se encrava e se manifesta de modo originário, oferecendo-se à percepção objetiva de qualquer indivíduo; secundariamente, no espírito do indivíduo que a capta desses seres e tenta (ou não) objetivá-la num poema; terciariamente, no próprio poema resultante desse trabalho objetivador do indivíduo-poeta. Este é o problema fundamental: se a poesia está no mundo originariamente, antes de estar no poeta ou no poema - e isso pode ser comprovado pela simples constatação popular de que determinados objetos/situações do mundo são ‘poéticos’ – ela tem a sua existência literária decida nesse trânsito do abstrato ao concreto, do mundo para o poema, através do poeta, no processo que a conduz do estado de potência ao de objeto. Então, podemos deduzir que a existência primordial da poesia se vincula à daqueles seres que exercem algum influxo sobre o sujeito que entra em contato com eles e o provocam para uma atitude estética de resposta, consumando o trânsito - da percepção à objetivação - mediante uma forma qualquer de linguagem.


Quais são esses seres?


A princípio, todos: tudo o que está no mundo pode provocar alguma coisa no ser humano. Mas, se todos os objetos/situações podem exercer essa provocação, alguns usualmente não o fazem.


Quais sim e quais não?


Os que exercem são aqueles que não se esgotam em si mesmos, que têm alguma força de sugestão para transitar do mundo para o espírito do homem e nele provocar um estímulo que solicita resposta: portanto, objetos/situações transitivos. Esse estímulo brota, não do objeto por si, mas por alguns de seus aspectos – exatamente aqueles onde se instala e donde decola a transitividade do ser. Como vemos facilmente: 1) não retemos nossa atenção em qualquer fato, mas apenas em alguns fatos, de acordo com seu índice de freqüência; 2) não nos rebelamos contra qualquer perda, mas apenas contra a perda, quando ela assume uma determinada dimensão; 3) não nos detemos a contemplar qualquer paisagem, mas apenas certas paisagens, com uma certa configuração. Portanto, nestas referências concretas, não é nem o fato, nem a perda, nem a paisagem que – por si mesmos – nos provocam uma reação, mas sim algum atributo do fato, da perda, da paisagem, que precisamos identificar. Então, se quisermos proceder a uma caracterização rigorosa da poesia, temos de deslocar o foco de investigação da generalidade dos objetos/situações para a particularidade de seus aspectos. Pois não são as coisas, por si mesmas, que provocam o ser humano, mas apenas os aspectos transitivos das coisas, através dos quais elas se exteriorizam e se manifestam numa provocação aos nossos sentidos, à nossa sensibilidade ou à nossa consciência.”




LYRA, Pedro. Conceito de poesia. São Paulo: Ática, 1986. p. 7-8.



“APAIXONADAMENTE”



por: Oscar Mendes


Reler, na idade madura, livros que nos encantaram na mocidade, é sempre um prazer a que não falta um travo de saudade. Às vezes, desta releitura colhem-se desilusões. O encantamento de outrora evaporou-se, como um perfume sutil. Nem mesmo uma débil ressonância do alvoroço de outrora sentimos vibrar na nossa sensibilidade. Tudo parece desbotado, morto, cinzento, sem significação e beleza.

Outras vezes, porém, a leitura de um livro está tão ligada a outras emoções e acontecimentos que revivem dentro de nós, embora atenuadas pelo tempo, muitas daquelas emoções antigas, agora não mais tão intensas e ferinas, e voltamos ao passado que ressurge diante de nós como um sonho, ou como um filme de que somos não mais atores, porém espectadores.

Outros livros há, ainda, que não perdem de todo o encanto antigo e ao passar-lhes as páginas encontramos, após vários trechos que hoje nos deixam indiferentes ou contra eles nos armam de olho crítico, o mesmo prazer e o mesmo encantamento que sentimos quando pela primeira vez nossa sensibilidade neles se dessedentou.

Releio agora, por exemplo, tantos anos depois duma primeira leitura, um livro de versos que me encantou na mocidade, justamente naquele período de vida em que, quando não se é poeta, ama-se a poesia e todo aquele que pode interpretar em versos o nosso mundo de emoções primaveris. Quando a poetisa portuguesa Virgínia Vitorino apareceu no mundo literário, sua poesia tinha qualquer coisa de tão puro, de tão límpido, de tão sincero, que imediatamente se tornou ela o poeta preferido dos que andavam cansados da rigidez parnasiana e das nebulosidades do simbolismo.

Seu livro de estréia “Namorados”, em que, em versos duma frescura juvenil, eram expressas com sutileza e graça as emoções primeiras do amor, tinha um tom de tamanha sinceridade, era tão simples na sua forma cristalina e cândida, que encantava a todos quantos o liam. Quem poderia esquecer aquele pequeno drama emocional que Virgínia Vitorino condenava nos catorze versos do soneto “Pelo Telefone”? Depois veio outro livro, este “Apaixonadamente”, que agora releio, na sua sexta edição (Edições Dois Mundos – Brasil, Portugal – 1945), com a mesma simplicidade de forma e a mesma melancolia serena.

“Apaixonadamente” faria supor, pelo título, que teríamos, em grau maior, a emoção amor-rosa de “Namorados”. Mas da leitura de seus versos se depreende logo que a “paixão” que os informa, não é o movimento desencadeado das emoções ativas, aquecidas ao rubro, mas a paixão sofrimento, a paixão resignação. E como prova de ser este o tom geral do livro, encontra-se logo após o soneto que explica o título, este outro, “Lucidez”, em que a razão prepondera sobre o coração e não o deixa iludir-se, num conhecimento lúcido do engano amoroso, aquele “engano d’alma ledo e cego”, de que já falara o grande patrício de Virgínia Vitorino.


“Guardo, enquanto puder, esta ilusão,

- ilusão que afinal me não ilude... -

Sei que nada há na vida que não mude,

nem mesmo há eternidade na paixão.


Tenho sido talvez violenta, rude,

Para o meu pobre e triste coração!

Mas nunca soube ouvir-me! Foi em vão

que para o convencer fiz quanto pude!


Hás-de mentir-me, eu sei, mas muito embora!

Diz-me sempre e sempre, a toda a hora,

as palavras que gosto de te ouvir!


Conscientemente, vou queimando as asas...

Sou como alguém que olhe o rubor das brasas

na certeza das cinzas que hão-de vir.”


Não há gritos de paixão no seu livro, não há desespero. Há essa serenidade triste dos que aceitam resignadamente a vida nas suas ilusões e nas suas misérias. Não há dramas pungentes, nem profundezas psicológicas. Mas sabem seus versos exprimir com agudeza e sinceridade certas tonalidades sutis do sentimento amoroso, como no soneto “Hesitação”, que já tive a oportunidade de citar, em escrito anterior, nesta revista, ou em “Capricho”, em que a amada cheia de ciúmes por ver o amado exageradamente “ao pé de toda a gente”, preferindo tê-lo ansioso e sucumbido, de lágrimas a bailar-lhe nos olhos, confessa o seu contraditório desejo:


“Assim teria um prazer raro e doce

eu, que para evitar-te uma que fosse

era capaz de dar a minha vida!”


Em muitos de seus versos sente-se plenamente a emoção das grandes amorosas, aquela oferta irrevogável de si mesma, aquela resignação ao sofrimento amoroso e à ingratidão, aquela humildade das que se entregam sem exigências, num obscuro senso de que o amor é dádiva e não troca de favores.




MENDES, Oscar. “’Apaixonadamente’”. In: Revista Alterosa. Belo Horizonte, MG: ano VIII, nº 69, janeiro de 1946, p. 52.



Virgínia Vitorino (1895-1967). Poetisa e escritora teatral, com o Curso de Filologia Românica da Faculdade de Letras de Lisboa, de piano, canto, harmonia e italiano do Conservatório Nacional de Lisboa. Professora do liceu, trabalhou também na Emissora Nacional onde dirigiu o teatro radiofónico. Publicou vários livros de versos e peças teatrais, muitas das quais foram levadas à cena no Teatro Nacional D. Maria II. Recebeu o prémio Gil Vicente do SNI pela peça Camaradas. Tem vasta colaboração espalhada por jornais e revistas portuguesas e brasileiras.


Disponível em: http://purl.pt/13858/1/geneses/2/3-184.html




 
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